O Trópico de Capricórnio
Mr. Miller
caminha e para
diante dum espelho
Abre lentamente
seu sobretudo
de marca qualquer
Tímido, desabotoa seu sorriso
até rir intensamente
do casaco no chão
Agora é tarde
Mr. Miller já sabe
que atrás do espelho
há geleia gasosa
há cristal inquebrantável
e decide cruzá-lo
sem saber o que vai ser.
domingo, 10 de março de 2013
sábado, 26 de fevereiro de 2011
...Silêncio
Poemas Místicos
sobre arte e criação
Colheita
Como vivem, morrem e caem
as folhas e os frutos
vivem, morrem e caem
os versos no papel
e brotam e se movem
pelo interior dos leitores.
29-12-84
Criação
Quantas palavras
Quantos poetas
Quantos caminhos
portas secretas...
29-08-84
Alguns frutos
Alguns poetas
brotam brandos e puros
crescem belos e fecundos
(alguns revoltam-se)
e murcham amargos
secos e sós.
09-04-85
Senhor
O escritor
dá o destino
dos vivos, dos mortos
do mal
dos mal-amados
com a mão
E quem comanda
a criação?
17-04-85
Artífice
O artista às vezes é
um pouco parente da gente
temos os traços de um
e os braços de outro
seguimos o gesto de algum
e o trajar de todos
- Sou prima de poeta
irmã de artesã
- Ah, como é bom ser artista
e ter mágica na vista!
Enriquecem nossos casebres
em brochura, gravura,
gravações, aparelhos
No retrato nome, sobrenome,
e assinatura
(que pedimos de joelhos)
Mesmo assim nos amam
são familiares
(que nunca temos)
precisam de nossos olhares
devemos dizer que os cremos.
(Os versos são para um avô
que me levou a versar).
17-04-85
Voto visionário
Os centésimos de segundo
não param
não esperam por você
voe até eles
e vaze o amanhã.
27-04-85
Uma confissão sem perdão
Somos larápios
emprestando poesia de outros
pra coroar nossa prosa
(que mal fala da rosa)
querendo engolir
as células dos sábios
Poe, toma teu terror
Pessoa, resgata vossa(s)
multiplicidade(s)
Blake, fecha as portas
Eliot, Shakespeare, Bandeira
rasguem toda a rota
se acharem-na torta,
Todos.
29-04-85
Hino-utilidade
De que adianta
ter-se
aviões, poetas,
lindas faces,
se não se sabe
como respirar ?
03-05-85
Pós-visão do brilho
Acho que sei
como quebrarão meus encantos
Acho que sinto
Como vazará meu instinto
serei como o poeta-suicida
findarei e voltarei
respiro após respiro
terei muitas vidas,
terei poucos anos,
talvez
Quantas vezes brilha
aquela luz
antes e depois?
07-05-85
Filme sem Fim
Quem não lembra
dos olhos de Gary Cooper?
Quem não apalpou as pernas
de Marlene Dietrich?
Glauber Rocha (foi?)
(e o vento, levou?)
Quantas tramas temos?
A trama sem nação
A terra sem tela
Os milímetros de emoção (antigos)
As calamidades de botões apertados,
O que revelaremos
da derradeira arte?
(Vamos parar em cena?)
09-05-85
Arte & Vendas (menos místico)
Procure as linhas
entre as entrelinhas
de uma música-comercial:
temos o romantismo-tablóide
de cifras e chifres
de um galã-de-novela
só as peças permanecem
aparente(mente) que é assim
“But what sells, sells.
That’s the law.”
Tradução simultânea:
“Mas o que vende, vende.
Esta é a lei.”
25-05-85
Pirâmides Permanecem...
Nas primeiras pirâmides
escondem-se os segredos
dos sangues, das dores, das crenças
-Uma pedra por cada vida!
Hoje, as pirâmides da polis
são tumbas isoladas
idolatradas, atadas
onde pequenos faraós
se enterram com ouros
de papel
- Cada vida por uma pedra!
26-05-85
Primeiro livro, última folha
A matéria
acaba,
mas não o
pensamento.
O espaço
Está em
N ó s.
27-05-85
sobre arte e criação
Colheita
Como vivem, morrem e caem
as folhas e os frutos
vivem, morrem e caem
os versos no papel
e brotam e se movem
pelo interior dos leitores.
29-12-84
Criação
Quantas palavras
Quantos poetas
Quantos caminhos
portas secretas...
29-08-84
Alguns frutos
Alguns poetas
brotam brandos e puros
crescem belos e fecundos
(alguns revoltam-se)
e murcham amargos
secos e sós.
09-04-85
Senhor
O escritor
dá o destino
dos vivos, dos mortos
do mal
dos mal-amados
com a mão
E quem comanda
a criação?
17-04-85
Artífice
O artista às vezes é
um pouco parente da gente
temos os traços de um
e os braços de outro
seguimos o gesto de algum
e o trajar de todos
- Sou prima de poeta
irmã de artesã
- Ah, como é bom ser artista
e ter mágica na vista!
Enriquecem nossos casebres
em brochura, gravura,
gravações, aparelhos
No retrato nome, sobrenome,
e assinatura
(que pedimos de joelhos)
Mesmo assim nos amam
são familiares
(que nunca temos)
precisam de nossos olhares
devemos dizer que os cremos.
(Os versos são para um avô
que me levou a versar).
17-04-85
Voto visionário
Os centésimos de segundo
não param
não esperam por você
voe até eles
e vaze o amanhã.
27-04-85
Uma confissão sem perdão
Somos larápios
emprestando poesia de outros
pra coroar nossa prosa
(que mal fala da rosa)
querendo engolir
as células dos sábios
Poe, toma teu terror
Pessoa, resgata vossa(s)
multiplicidade(s)
Blake, fecha as portas
Eliot, Shakespeare, Bandeira
rasguem toda a rota
se acharem-na torta,
Todos.
29-04-85
Hino-utilidade
De que adianta
ter-se
aviões, poetas,
lindas faces,
se não se sabe
como respirar ?
03-05-85
Pós-visão do brilho
Acho que sei
como quebrarão meus encantos
Acho que sinto
Como vazará meu instinto
serei como o poeta-suicida
findarei e voltarei
respiro após respiro
terei muitas vidas,
terei poucos anos,
talvez
Quantas vezes brilha
aquela luz
antes e depois?
07-05-85
Filme sem Fim
Quem não lembra
dos olhos de Gary Cooper?
Quem não apalpou as pernas
de Marlene Dietrich?
Glauber Rocha (foi?)
(e o vento, levou?)
Quantas tramas temos?
A trama sem nação
A terra sem tela
Os milímetros de emoção (antigos)
As calamidades de botões apertados,
O que revelaremos
da derradeira arte?
(Vamos parar em cena?)
09-05-85
Arte & Vendas (menos místico)
Procure as linhas
entre as entrelinhas
de uma música-comercial:
temos o romantismo-tablóide
de cifras e chifres
de um galã-de-novela
só as peças permanecem
aparente(mente) que é assim
“But what sells, sells.
That’s the law.”
Tradução simultânea:
“Mas o que vende, vende.
Esta é a lei.”
25-05-85
Pirâmides Permanecem...
Nas primeiras pirâmides
escondem-se os segredos
dos sangues, das dores, das crenças
-Uma pedra por cada vida!
Hoje, as pirâmides da polis
são tumbas isoladas
idolatradas, atadas
onde pequenos faraós
se enterram com ouros
de papel
- Cada vida por uma pedra!
26-05-85
Primeiro livro, última folha
A matéria
acaba,
mas não o
pensamento.
O espaço
Está em
N ó s.
27-05-85
...Silêncio
Personagens
(aqueles que passam da vida à virgula)
Para Fernando Pessoa
Da lágrima que nos rouba o rosto
Do tempo que passa em vão
Tu, vidente que me adivinha
os pensamentos de menininha
Que sonhar fosse a vida
E sonhar fosse então.
12-01-85
Mira o mar, Miró
Mira o mar, Miró
mira e admira
na beleza rara
nossa jóia cara
qual pétala bela
que teus encantos, na tela
criam e recriam.
O Mar de Miró
Nunca brilha só...
31-01-85
Aqui jaz Janis
Um disco diz:
Cantou
dançou
bebeu
amou.
Viveu, viveu
cantou, cantou
acabou-se
Morreu. Morreu (?)
(Quantas vezes viveu Janis?)
09-04-85
Cara Cora
Cora Coralina
ainda Aninha
preparou pra nós
nos seus livros
de capa de cobre
com sua mão-colher
poemas-doces
sabor de sabedoria.
15-04-85
Don’t go
Marilyn Monroe
Um coração
caiu no chão
(Que lugar-comum!!)
O roteiro se repete
a estrela, a vedete
tirou sua veste
de sedução
“Traga minha bebida
Traga minha vida
Traga meu homem
Que eles me consomem”
“Quero sumir
antes que alguém
me esqueça
Quero sorrir
antes que tudo
anoiteça...”
Uma garota
Põe seus pés
nos passos dos astros
linda, pequena
(Ainda é assim?)
FIM
01-05-85
Rimbaud imaginou...
Imagine Rimbaud
no século vinte
Talvez achasse que há
muita vida pra um só cronometro
muita carne pra um só osso
Ele entalharia tudo
E nos desenharia mutantes
atrás de nossos edifícios-fortalezas.
10-05-85
(aqueles que passam da vida à virgula)
Para Fernando Pessoa
Da lágrima que nos rouba o rosto
Do tempo que passa em vão
Tu, vidente que me adivinha
os pensamentos de menininha
Que sonhar fosse a vida
E sonhar fosse então.
12-01-85
Mira o mar, Miró
Mira o mar, Miró
mira e admira
na beleza rara
nossa jóia cara
qual pétala bela
que teus encantos, na tela
criam e recriam.
O Mar de Miró
Nunca brilha só...
31-01-85
Aqui jaz Janis
Um disco diz:
Cantou
dançou
bebeu
amou.
Viveu, viveu
cantou, cantou
acabou-se
Morreu. Morreu (?)
(Quantas vezes viveu Janis?)
09-04-85
Cara Cora
Cora Coralina
ainda Aninha
preparou pra nós
nos seus livros
de capa de cobre
com sua mão-colher
poemas-doces
sabor de sabedoria.
15-04-85
Don’t go
Marilyn Monroe
Um coração
caiu no chão
(Que lugar-comum!!)
O roteiro se repete
a estrela, a vedete
tirou sua veste
de sedução
“Traga minha bebida
Traga minha vida
Traga meu homem
Que eles me consomem”
“Quero sumir
antes que alguém
me esqueça
Quero sorrir
antes que tudo
anoiteça...”
Uma garota
Põe seus pés
nos passos dos astros
linda, pequena
(Ainda é assim?)
FIM
01-05-85
Rimbaud imaginou...
Imagine Rimbaud
no século vinte
Talvez achasse que há
muita vida pra um só cronometro
muita carne pra um só osso
Ele entalharia tudo
E nos desenharia mutantes
atrás de nossos edifícios-fortalezas.
10-05-85
...Silêncio
Canções Curtas
(sobre música)
Tempos mortos
Morre a cantora
cala a canção
cai o velho castelo
onde embalei minha ilusão.
25-02-85
Ar Alugado
Demand of a poor man:
“A song, please.
A simple song!”
No passado
sabiamos solar
Atual-mente
vitrolas vazias
pronunciam, anunciam
suspiram por nós
Até quando tristes trastes
roubam nosso respiração?
(Onde anda o diapasão ?)
- O ar é vivo
miseráveis vilões
até pra traçar
vossas destruições...
16-04-85
Ritmos
O rock queima
a melodia arde
o nativo teima
o cidadão faz alarde
“O easy rider
o selvagem
o nauta
todos têm
sua pauta”.
16-04-85
Todos Blues
A guitarra produz
um acorde azul
a garganta tem
que riscar, rasgar
arriscar a toda conta
a torta, contra
as leis dos amantes,
dos monetários
dos longos monopólios
do baixo barulho
do alto azul (blue).
28-04-85
(sobre música)
Tempos mortos
Morre a cantora
cala a canção
cai o velho castelo
onde embalei minha ilusão.
25-02-85
Ar Alugado
Demand of a poor man:
“A song, please.
A simple song!”
No passado
sabiamos solar
Atual-mente
vitrolas vazias
pronunciam, anunciam
suspiram por nós
Até quando tristes trastes
roubam nosso respiração?
(Onde anda o diapasão ?)
- O ar é vivo
miseráveis vilões
até pra traçar
vossas destruições...
16-04-85
Ritmos
O rock queima
a melodia arde
o nativo teima
o cidadão faz alarde
“O easy rider
o selvagem
o nauta
todos têm
sua pauta”.
16-04-85
Todos Blues
A guitarra produz
um acorde azul
a garganta tem
que riscar, rasgar
arriscar a toda conta
a torta, contra
as leis dos amantes,
dos monetários
dos longos monopólios
do baixo barulho
do alto azul (blue).
28-04-85
...Silêncio
Anos 60
Um tempo (mágico) e seus ecos
60 são os anos
60 segundos para nascer
60 minutos para morrer
60 gramas para ingerir
de sonho, guerra e aflição
e a prosperidade, na verdade
te espreita fria nos quadros
da televisão ...
29-11-84
De idos e vindos
Cabelos ao vento
não mais balançam
Vozes de deuses
não mais encantam
com seu canto
de morte, de dor
Guitarras aos dedos
não mais transportam
em solos livres
a desvarios coloridos
Dedos aflitos
não mais procuram
pela última gota
de uma branca ilusão
Olhos parados
não mais se inquietam
não mais lhes espetam
raios cinzentos
de um mundo sem luz
Filhos perdidos
não mais esperam
que a alma do mundo
lhes estenda a mão
Mas lábios confusos
ainda perguntam:
quem é que está morto?
quem foi que ficou?
30-05-83
Lembrança pequena (?)
Setenta e quatro acabou
oitenta e quatro também
mas o sonho ainda reina
na ilusão de alguém ...
14-03-85
Ópera dos pobres ...
Num velho teatro vazio
a orquestra calou-se
e deu vez a guitarra
os velhos a voz aos novos
e os pobres de espírito
e ricos de coração
encenaram seu drama
que apenas mudou de direção
03-04-85
Nova devoção
De repente os rapazes
partiram a página
e abriram a partitura
e o sangue escorreu
de solitárias cruzes.
03-04-85
Borrão tingido
O velho easy rider
não é uma figura extinta
ele persiste no tempo
como um borrão de tinta
Hoje é João ou Ricardo
Jack ou Michel
no fim de semana, torturado
põe de lado o seu papel
Encha o tanque! É sexta-feira!
Amanhã é só diversão!
... Outros de estanque, a via inteira
cobrem na vida em peregrinação
Beba teu sangue no whisky
teu pecado no champagne
onde verter vinho fique ...
(... só uns dias!)
E que um Deus
te acompanhe!
Você já tentou outro itinerário?
(Cuidado com o conformado
atrás das árvores)
17-04-85
Sonsopostos
Guerra Guitarra
paz pão
17-01-85
Um tempo (mágico) e seus ecos
60 são os anos
60 segundos para nascer
60 minutos para morrer
60 gramas para ingerir
de sonho, guerra e aflição
e a prosperidade, na verdade
te espreita fria nos quadros
da televisão ...
29-11-84
De idos e vindos
Cabelos ao vento
não mais balançam
Vozes de deuses
não mais encantam
com seu canto
de morte, de dor
Guitarras aos dedos
não mais transportam
em solos livres
a desvarios coloridos
Dedos aflitos
não mais procuram
pela última gota
de uma branca ilusão
Olhos parados
não mais se inquietam
não mais lhes espetam
raios cinzentos
de um mundo sem luz
Filhos perdidos
não mais esperam
que a alma do mundo
lhes estenda a mão
Mas lábios confusos
ainda perguntam:
quem é que está morto?
quem foi que ficou?
30-05-83
Lembrança pequena (?)
Setenta e quatro acabou
oitenta e quatro também
mas o sonho ainda reina
na ilusão de alguém ...
14-03-85
Ópera dos pobres ...
Num velho teatro vazio
a orquestra calou-se
e deu vez a guitarra
os velhos a voz aos novos
e os pobres de espírito
e ricos de coração
encenaram seu drama
que apenas mudou de direção
03-04-85
Nova devoção
De repente os rapazes
partiram a página
e abriram a partitura
e o sangue escorreu
de solitárias cruzes.
03-04-85
Borrão tingido
O velho easy rider
não é uma figura extinta
ele persiste no tempo
como um borrão de tinta
Hoje é João ou Ricardo
Jack ou Michel
no fim de semana, torturado
põe de lado o seu papel
Encha o tanque! É sexta-feira!
Amanhã é só diversão!
... Outros de estanque, a via inteira
cobrem na vida em peregrinação
Beba teu sangue no whisky
teu pecado no champagne
onde verter vinho fique ...
(... só uns dias!)
E que um Deus
te acompanhe!
Você já tentou outro itinerário?
(Cuidado com o conformado
atrás das árvores)
17-04-85
Sonsopostos
Guerra Guitarra
paz pão
17-01-85
sexta-feira, 12 de março de 2010
Saudade da “Paz”
Eu não sei se é porque estou numa fase Floydiana, mas tenho sentido saudade dos anos sessenta e setenta, ando relembrando bastante o que vi e vivi naqueles dias. Tenho pensado não só na estética, mas também no pensamento daqueles tempos. Na verdade, tenho saudade de certas coisas do mundo naqueles anos. Mas não pense que é saudosismo barato, aquele que termina em “no meu tempo era melhor”. Não. Eu também penso na primeira pessoa do plural. Fico refletindo sobre o que aconteceu nesse nosso mundo dos anos sessenta até agora. Sim, é claro que existe um fator individual nesse meu ponto de partida; afinal de contas, nasci nessa época, e além de observar os fatos senti os efeitos, alguns progressistas, outros reacionários, terríveis, principalmente no nosso país. Guerra do Vietnã, Woodstock, Guerra Fria, conflitos na Irlanda, conflitos em Israel, o Muro de Berlim, crise do petróleo. Cresci assistindo o noticiário da televisão e descobrindo outros países. “Pai, o que é comunismo?”, “onde fica o Vietnã?” Sim, hoje temos novas guerras, novos conflitos, novas crises. Alguém falou “mudam só os nomes?” Não vou contestar. Como disse, meu saudosismo não é raso.
E quando penso na primeira pessoa do plural procuro entender o que fizemos e estamos fazendo com nosso mundo. E quando revejo na minha mente diversos fatos, diversas mudanças que ocorreram de lá pra cá, eu chego a conclusão que nasci numa época de transbordamento. Sim, transbordamento. O ser humano acumulou tantas coisas (ou seriam bens? conquistas? idéias? ideologias? realidades?) que resultaram em mais uma explicitação de suas mazelas. A última delas a se exibir, a dançar na nossa frente e rir da nossa cara de espanto tem sido a violência. Esta senhora forte e bem apropriada de grande parte da natureza humana resolveu que, além de dançar e cantar, iria reinar absoluta. “Chega de me esconder”, falou ela. “A festa agora é minha!”. Pois é, essa senhora que vive disfarçada nas dobras do ser humano, suportando eras de contensão e sublimação, até que não caber mais nas nossas vestes e sair... livre e solta. Não sei se podemos culpar algum fator ou comportamento ou tendência em particular pelo que aconteceu. O fato é que, quando tudo o mais transbordou, ela também transbordou. Descarada, tenta seduzir todos os seres humanos que pensam de maneira imediatista (afinal, quem de nós não sente dor de barriga?), aliciar os mais incautos e dominar os delirantes (aqueles que, como ela, já perderam as rédeas). A meu ver, essa senhora já reinou demais pra nossos estômagos.
E se permitem a meu saudosismo falar um pouco de bobagem, gosto de lembrar dos dias em que “paz” e “amor” eram palavras que não causavam embaraço; pois os sentimentos que representam eram mais reverenciados, mais buscados. Dias em que, ainda que de maneira errada, as pessoas tentavam se libertar do consumismo (naqueles dias chamava-se “sociedade de consumo”), em que o grande irmão parecia ainda apenas ficção. Gosto de ser egoísta e lembrar que havia mais espaço livre e menos área urbana, de lembrar que a maioria das crianças brincava nas ruas, e que as noites eram mais tranqüilas. Mas nem tudo era perfeito. Não era só o país que sentia falta de liberdade. Eu também. Pois é, liberdade não é “uma calça velha, azul e desbotada”, é ter que arcar com as conseqüências. Então, eu proponho uma reflexão: como vamos enfrentar a senhora violência, que resolveu reinar nos últimos anos? É claro que vamos precisar de muita sabedoria para derrotá-la, dominá-la, vencê-la. Vamos ter muito que pensar, discutir, agir. Mas creio que temos as armas, ou melhor, as forças. Só não podemos fugir do espelho. Espelho na primeira pessoa do plural. Ele reflete nossa imagem.
Eu não sei se é porque estou numa fase Floydiana, mas tenho sentido saudade dos anos sessenta e setenta, ando relembrando bastante o que vi e vivi naqueles dias. Tenho pensado não só na estética, mas também no pensamento daqueles tempos. Na verdade, tenho saudade de certas coisas do mundo naqueles anos. Mas não pense que é saudosismo barato, aquele que termina em “no meu tempo era melhor”. Não. Eu também penso na primeira pessoa do plural. Fico refletindo sobre o que aconteceu nesse nosso mundo dos anos sessenta até agora. Sim, é claro que existe um fator individual nesse meu ponto de partida; afinal de contas, nasci nessa época, e além de observar os fatos senti os efeitos, alguns progressistas, outros reacionários, terríveis, principalmente no nosso país. Guerra do Vietnã, Woodstock, Guerra Fria, conflitos na Irlanda, conflitos em Israel, o Muro de Berlim, crise do petróleo. Cresci assistindo o noticiário da televisão e descobrindo outros países. “Pai, o que é comunismo?”, “onde fica o Vietnã?” Sim, hoje temos novas guerras, novos conflitos, novas crises. Alguém falou “mudam só os nomes?” Não vou contestar. Como disse, meu saudosismo não é raso.
E quando penso na primeira pessoa do plural procuro entender o que fizemos e estamos fazendo com nosso mundo. E quando revejo na minha mente diversos fatos, diversas mudanças que ocorreram de lá pra cá, eu chego a conclusão que nasci numa época de transbordamento. Sim, transbordamento. O ser humano acumulou tantas coisas (ou seriam bens? conquistas? idéias? ideologias? realidades?) que resultaram em mais uma explicitação de suas mazelas. A última delas a se exibir, a dançar na nossa frente e rir da nossa cara de espanto tem sido a violência. Esta senhora forte e bem apropriada de grande parte da natureza humana resolveu que, além de dançar e cantar, iria reinar absoluta. “Chega de me esconder”, falou ela. “A festa agora é minha!”. Pois é, essa senhora que vive disfarçada nas dobras do ser humano, suportando eras de contensão e sublimação, até que não caber mais nas nossas vestes e sair... livre e solta. Não sei se podemos culpar algum fator ou comportamento ou tendência em particular pelo que aconteceu. O fato é que, quando tudo o mais transbordou, ela também transbordou. Descarada, tenta seduzir todos os seres humanos que pensam de maneira imediatista (afinal, quem de nós não sente dor de barriga?), aliciar os mais incautos e dominar os delirantes (aqueles que, como ela, já perderam as rédeas). A meu ver, essa senhora já reinou demais pra nossos estômagos.
E se permitem a meu saudosismo falar um pouco de bobagem, gosto de lembrar dos dias em que “paz” e “amor” eram palavras que não causavam embaraço; pois os sentimentos que representam eram mais reverenciados, mais buscados. Dias em que, ainda que de maneira errada, as pessoas tentavam se libertar do consumismo (naqueles dias chamava-se “sociedade de consumo”), em que o grande irmão parecia ainda apenas ficção. Gosto de ser egoísta e lembrar que havia mais espaço livre e menos área urbana, de lembrar que a maioria das crianças brincava nas ruas, e que as noites eram mais tranqüilas. Mas nem tudo era perfeito. Não era só o país que sentia falta de liberdade. Eu também. Pois é, liberdade não é “uma calça velha, azul e desbotada”, é ter que arcar com as conseqüências. Então, eu proponho uma reflexão: como vamos enfrentar a senhora violência, que resolveu reinar nos últimos anos? É claro que vamos precisar de muita sabedoria para derrotá-la, dominá-la, vencê-la. Vamos ter muito que pensar, discutir, agir. Mas creio que temos as armas, ou melhor, as forças. Só não podemos fugir do espelho. Espelho na primeira pessoa do plural. Ele reflete nossa imagem.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Pequeno Raio-de-Sol
Pequeno Raio-de-Sol
Não posso precisar a época em que essa história aconteceu. Só sei que se passou há séculos no Oriente, talvez no Japão.
Flor-do-campo era uma moça que vivia com a mãe e dois irmãos numa cidade muito bonita, à beira de uma região montanhosa. Um rio límpido descia a montanha e cruzava a cidade por trás. Nem Flor-do-campo nem seus irmãos sabiam ler ou escrever. Viviam da terra, como tinham feito seus antepassados.
Flor-do-campo não tinha pretendentes, embora fosse bonita, nem fora prometida à ninguém. Mas isso não a incomodava. Vivia cada dia de uma vez, saboreando a beleza daquele lugar, de onde nunca tinha saído. Seus irmàos eram sérios e severos, e sua mãe, conciliadora.
Um verão trouxe à Flor-do-campo tudo o que ela jamais buscara ou cobiçara.
Não era muito comum que pessoas das cidades grandes viessem visitar aquele lugar, mas naquele verão isso aconteceu. Um artista chegara à cidade, com propósito de ficar lá por uns tempos, quem sabe, para pintar a beleza da região.
Flor-do-campo não o vira quando chegou, nem tampouco no dia seguinte. Passaram-se dias até que ouvisse sobre ele, sobre seu nome ou o que fazia. No era um um homem de temperamento difícil. Mais de uma, duas ou três mulheres do lugar tinham ido trabalhar para ele, mas nenhuma delas tinha permanecido. Exigia demais, diziam. Queria que limpassem e arrumassem a casa, fizessem sua comida, preparassem seu banho e ainda o ajudassem com todas aquelas tintas e pincéis. Nenhuma suportava.
Flor-do-campo ouviu os fatos da boca de uma das vizinhas, quieta, calada. Não emitiu nenhuma opinião, mas a história não lhe saiu da cabeça. No dia seguinte, saiu de casa para ir apanhar ervas, e ao colocar os pés fora de casa veio-lhe à mente a ideia de ir aonde No estava morando. Mesmo que não conhecesse a cidade teria descoberto seu canto. A casa estava em desordem do lado de fora, e No, ranzinza, praguejava e xingava o vento, enquanto fazia ponta em um pedaço de galho, para fazer um pincel, talvez. Flor-do-campo se aproximou lentamente, e com toda delicadeza perguntou-lhe se ele estava precisando de uma ajudante, de uma mulher para cuidar da casa. No levantou os olhos, e ao ver o rosto de Flor-do-campo, seu mau humor sumiu por uns instantes. Estava determinado a mandá-la sumir dali, ir para o inferno. Mas quando olhou para ela, seus olhos ficaram perdidos, viraram em todas as direções. Tentava encará-la, mas não conseguia. Disse então que precisava, sim, de uma ajudante, e que ela poderia começar no dia seguinte. Disse o quanto pagaria, e que ela deveria vir todos os dias. Os irmãos de Flor-do-campo, Príncipe e Leão, não gostaram quando ela disse que iria trabalhar para aquele homem, principalmente porque ela era solteira. Mas a mãe interveio, disse que eles precisavam de dinheiro.
Flor-do-campo não se achava muito preparada para o desafio, mas conseguiu fazer tudo o que No queria. Ele não era exigente com detalhes, mas não gostava de esperar. Se designava uma tarefa, tinha de ser feita imediatamente. Se precisava de um objeto, tinha de estar à mão. Suas refeições podiam esperar por ele, mas não ele por elas. Seu chá tinha que ser forte, e seu banho bem quente. Mas o mais difícil para Flor-do-campo era aprender a ajudá-lo com as tintas. No começo, tremia quando ele lhe pedia para misturar as cores ou para derramá-las na paleta. Depois foi perdendo o medo e descobriu que a melhor maneira de acertar era ir perguntando se já estava bom ou se deveria misturar mais.
No era um artista perfeito. Sabia bem as cores que queira, e como obtê-las. Também sabia exatamente o que queria retratar. Tudo parecia já sair pronto de sua mente. Às vezes sentava-se do lado de fora e fazia alguns esboços no papel, mas geralmente já os desenhava sobre a tela.
Flor-do-campo jamais tivera conhecido homem como aquele, tão inteligente, tão esperto, tão certo do que queria. E tão cheio de inspiração. Ela não sabia criar, mas sabia compreendê-lo. Ele via à sua volta a mesma beleza que ela via. Apaixonou-se por ele, ou melhor, amava-o.
A casa de No iria se povoar de quadros lentamente, mas assim que os primeiros foram pendurados, chamaram a atenção de todos que os viram. Ele não pretendia vender seus quadros a gente de poucas posses, então, algumas vezes apanhava um ou dois e saia por uns dias para vendê-los. Depois de um ano, começaram a aparecer, lentamente, pessoas de longe interessadas em comprar seus quadros. Pessoas bem vestidas, acompanhadas de seus empregados.
Flor-do-campo tentava esconder até de si mesma o que sentia por No, mas, com o tempo, não conseguia mais. Passou a cuidar mais de sua aparência, arrumar melhor as roupas, ajeitar melhor o cabelo. Não se dava conta da armadilha que a esperava.
Um dia, a paixão o amor e o desejo a arrebataram por completo, e ela então prendeu os cabelos da maneira mais bonita que sabia, como uma moça se arruma para o namorado. Fez uma trança com uma mecha de cabelo e deixou-a caída sobre o peito. Naquele dia, No mostrou sua outra face. Não conseguiu se concentrar na pintura, jogou o pincel na mesa e andou até Flor-do-campo. Jogou no chão o que ela segurava, e agarrou-a com toda a força que possuía. Começou a beijá-la e a tentar tirar sua roupa como um bicho no cio, e tão rápido que ela nem teve tempo de se afastar ou dizer uma palavra. Flor-do-campo tentou sair dos braços dele, mas ele era muito forte. Começou então a pedir a ele que parasse, a dizer que era uma moça honrada, implorou-lhe que parasse com aquilo, começou até a chorar, mas ele não lhe ouvia, agarrava-lhe com mais força. Flor-do-campo, horrorizada, tentou afastá-lo, mas ele apanhou um dos potes e bateu-lhe na cabeça. Ela desmaiou por alguns instantes. Quando acordou, No já estava sobre ela, semi-despida, beijando-a, tocando-a, e ela nada mais pode fazer. No segurava seus braços e beijava-a, até que ela começou a sentir desejo. Desejo, vergonha e tristeza. Porque não era assim que ela esperava ser tratada. Inocente, tinha se embelezado na esperança de atrair seu amor. Não era assim que ela queria fazer amor com ele pela primeira vez, rendida como um animal, aprisionada como uma fera, sem ter sequer desfrutado um olhar de desejo. Nem lhe era permitido possuir tais desejos. No era o dono do desejo. Ele a quisera. Ele a tivera. E ponto final.
Flor-do-campo tentou vestir-se o mais rápido que pode, e fugiu. Saiu correndo, chorando, arrependida por ter-se mostrado. Jamais imaginaria que isso iria acontecer. Essa era a face de No que ela não conhecia. Chegou em casa aos tropeços, aos soluços, sem fôlego, sem ar. A mãe tentou falar com ela, mas correu para o quarto, sentou-se no chão e chorou mais. Chorou e se desesperou. A mãe não entendia o que estava acontecendo, mas os irmãos, ao vê-la com os cabelos e as roupas desarrumados, logo perceberam do que se tratava. Começaram a gritar com ela, a amaldiçoá-la e a dizer que aquilo era um castigo por ela desobedecido. Apontavam-lhe o dedo e a chamavam de desonrada. Ela era a culpada de tudo, a vergonha da família.
Flor-do-campo não retornou mais à casa de No, que voltou à desordem de antes. Ele tentou se arranjar como podia, mas era muito difícil para ele continuar sem sua ajuda. Ficou meses sem pintar. Bebeu mais do que devia. Então decidiu ir falar com ela. Ao chegar à casa de Flor-do-campo, viu-a de longe, varrendo a porta. Sua barriga estava enorme. No parou. Seu coração disparou. Não acreditava no que via. Afora entendia porque o tinham olhado de maneira diferente. Levou as mãos ao rosto. Suou frio. Deu meia volta e saiu correndo. Trancou-se em casa. Bebeu até perder a noção de si. Acordou no dia seguinte, no chão. Batiam à porta. Tinha certeza que eram os irmãos de Flor-do-campo. Era um mensageiro com uma encomenda de um rico senhor: uma quadro para ser levado dentro de um mês, que seria ofertado como presente de casamento a um nobre. No teria que trabalhar, fosse como fosse.
Duas semanas depois, Flor-do-campo sentiu as dores do parto. A mãe aqueceu água e colocou-a numa tina a seu lado, pronta a assisti-la no parto. Príncipe e Leão não a deixaram ficar. Tiraram a mãe do quarto à força, arrastaram-na para fora da casa, e disseram que Flor-do-campo teria que ter o filho sozinha, que nenhum deles iria ajudá-la naquela desonra. Os três ficaram fora da casa. Quanto mais a mãe chorava, mais os filhos criticavam a ela e à irmã.
Flor-do-campo conseguiu terminar o parto sozinha. Uma menina. Pequeno Raio-de-Sol. Ela vestiu-a, embrulhou-a, deitou-a a seu lado e adormeceu, exausta. Depois de um tempo, os irmãos deixaram a mãe entrar. Ao lado da tina cheia d’água vermelha estavam as duas. A mãe surpreendeu-se, e retirou a tina. Os irmãos praguejaram, revoltados.
Pequeno Raio-de-Sol nasceu quase em silêncio. Chorou baixinho, como se soubesse que não tinha permissão para nascer. Tampouco tinha males. Como se soubesse que era uma criança pobre, sem direito a adoentar. Depois de uns dias, Flor-do-campo viu-se obrigada a fazer o que não queria. Foi procurar No. Apareceu de manhã, bem cedo, com a bebê nos braços, com o mesmo passo lento e o mesmo jeito delicado. Perguntou se podia voltar, pois tinha que sustentar a menina. No passou os olhos pelas duas rapidamente, e novamente, com o olhar perdido, disse que sim. Flor-do-campo procurou uma caixa em que pudesse improvisar um berço. Trabalhava e cuidava de seu Pequeno Raio-de-Sol. Às vezes, No a chamava e ela não atendia. Ele então ia até ela, irritado, e a encontrava amamentando. Baixava os olhos e saia, envergonhado.
Flor-do-campo jamais batia em sua menina ou gritava com ela. Sempre explicava que tinha de trabalhar, e a deixava no chão com os brinquedos, alguns deles improvisados. Pequeno Raio-de-Sol parecia entender tudo. Não tentava grandes travessuras, nem se afastava. De vez em quando, sorria para No. Ele desviava o olhar, desconcertado.
As encomendas de quadros foram aumentando, e quando Pequeno Raio-de-Sol tinha quase dois anos, No recebeu um convite. Um convite para ir a um grande centro de artes. Seu sonho chegara.
No ia partir dias depois do convite. Mas quando estava arrumando tudo, a consciência apareceu. Disse para Flor-do-campo parar com tudo, que ele não iria mais, que ele não merecia nada bom depois de tudo que tinha feito à ela. Pegou todos os pincéis, inclusive os que ele próprio tinha feito, e quando ia quebrá-los, Flor-do-campo segurou suas mãos:
“Não faça isso, por favor. Você é um grande artista. Não deve abandonar sua arte, deve mostrá-la a todos.”
No abraçou-a, pediu-lhe que o perdoasse, disse que só poderia partir se ela o perdoasse. Flor-do-campo balançou a cabeça. Apenas deixou as lágrimas descerem. Fechou as portas e janelas e ficou com No. Naquela noite, ela e Pequeno Raio-de-Sol não foram para casa.
Quando No estava partindo, quase toda a cidade veio vê-lo, despedir-se dele. A grande partida do grande artista. Dentro da carruagem, no último momento, No chamou Pequeno Raio-de-Sol com um gesto. A pequena correu até ele. Ele lhe disse umas palavras que ninguém ouviu, e ela balançou a cabeça afirmativamente e o abraçou. Ele a beijou, e partiu.
Flor-do-campo tinha desejado, do fundo de sua alma, que No as tivesse levado consigo. Mas já conhecia No. Sabia que ele não faria isso.
Quase dois anos se passaram sem que No retornasse ou mandasse notícias. Então começaram os tormentos de Flor-do-campo. Um de seus vizinhos, Erva-do-mato, começou a pressioná-la, perguntando quando No iria voltar e se casar com ela. Ela dizia que não sabia quando, mas que ele voltaria.
Erva-do-mato a atormentou por meses, e começou a induzir os vizinhos a fazerem o mesmo. Dizia a todos que ela era desonrada, e que devia partir com a filha para a casa de mulheres. Flor-do-campo fugia de suas agressões, até que um dia não conseguiu vencê-lo. Ele entrou em sua casa, entregou-lhe um embrulho de pano e disse:
“É isto ou você e sua filha vão para a casa de mulheres. Você tem até amanhã para decidir.”
O coração de Flor-do-campo gelou. A adaga era mais fria que a morte.
Flor-do-campo saiu de casa bem cedo e deixou seu Pequeno Raio-de-Sol dormindo. No começo da tarde foi encontrada na beira do rio. Seus cabelos negros ondulavam com a água do rio. Os olhos abertos. A adaga no ventre condenado. Raio-de-Sol não iria mais para o prostíbulo. Agora era órfã.
No voltou depois de um ano. Era um outro homem. Tinha uma aparência serena. Chegou sorrindo. Pequeno Raio-de-Sol não o reconheceu, mas a avó disse que aquele era seu pai. No abraçou a menina. Ainda abraçado a ela, perguntou por Flor-do-campo. A mãe baixou os olhos e saiu. No não compreendeu. A esposa de Príncipe contou-lhe o que havia acontecido. A No só restou ir à beira do rio e chorar.
Erva-do-mato não acreditou quando lhe contaram sobre Flor-do-campo. Durante muitos meses passava horas vagando durante o dia ou à noite. Até que, um dia, se ajoelhou à beira do rio, com a adaga na mão. A alma de Flor-do-campo lhe apareceu. E pediu-lhe que não fizesse aquilo, que procurasse ajudar outras pessoas. Ele prometeu a ela que o faria.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Flor-do-campo ainda não reencontrou seu Pequeno Raio-de-Sol.
Erva-do-mato tenta se equilibrar entre dois extremos: abraçou o idealismo, e sempre que pode, procura realizar trabalhos comunitários. Ainda marcado pela consciência, deverá criar e educar os filhos que o destino lhe trouxer de volta.
No, corroído pela culpa, e protegido pela imagem de honestidade e integridade que o reveste, envelhece mais a cada dia, cercado pelos tesouros que continua acumulando.
Não posso precisar a época em que essa história aconteceu. Só sei que se passou há séculos no Oriente, talvez no Japão.
Flor-do-campo era uma moça que vivia com a mãe e dois irmãos numa cidade muito bonita, à beira de uma região montanhosa. Um rio límpido descia a montanha e cruzava a cidade por trás. Nem Flor-do-campo nem seus irmãos sabiam ler ou escrever. Viviam da terra, como tinham feito seus antepassados.
Flor-do-campo não tinha pretendentes, embora fosse bonita, nem fora prometida à ninguém. Mas isso não a incomodava. Vivia cada dia de uma vez, saboreando a beleza daquele lugar, de onde nunca tinha saído. Seus irmàos eram sérios e severos, e sua mãe, conciliadora.
Um verão trouxe à Flor-do-campo tudo o que ela jamais buscara ou cobiçara.
Não era muito comum que pessoas das cidades grandes viessem visitar aquele lugar, mas naquele verão isso aconteceu. Um artista chegara à cidade, com propósito de ficar lá por uns tempos, quem sabe, para pintar a beleza da região.
Flor-do-campo não o vira quando chegou, nem tampouco no dia seguinte. Passaram-se dias até que ouvisse sobre ele, sobre seu nome ou o que fazia. No era um um homem de temperamento difícil. Mais de uma, duas ou três mulheres do lugar tinham ido trabalhar para ele, mas nenhuma delas tinha permanecido. Exigia demais, diziam. Queria que limpassem e arrumassem a casa, fizessem sua comida, preparassem seu banho e ainda o ajudassem com todas aquelas tintas e pincéis. Nenhuma suportava.
Flor-do-campo ouviu os fatos da boca de uma das vizinhas, quieta, calada. Não emitiu nenhuma opinião, mas a história não lhe saiu da cabeça. No dia seguinte, saiu de casa para ir apanhar ervas, e ao colocar os pés fora de casa veio-lhe à mente a ideia de ir aonde No estava morando. Mesmo que não conhecesse a cidade teria descoberto seu canto. A casa estava em desordem do lado de fora, e No, ranzinza, praguejava e xingava o vento, enquanto fazia ponta em um pedaço de galho, para fazer um pincel, talvez. Flor-do-campo se aproximou lentamente, e com toda delicadeza perguntou-lhe se ele estava precisando de uma ajudante, de uma mulher para cuidar da casa. No levantou os olhos, e ao ver o rosto de Flor-do-campo, seu mau humor sumiu por uns instantes. Estava determinado a mandá-la sumir dali, ir para o inferno. Mas quando olhou para ela, seus olhos ficaram perdidos, viraram em todas as direções. Tentava encará-la, mas não conseguia. Disse então que precisava, sim, de uma ajudante, e que ela poderia começar no dia seguinte. Disse o quanto pagaria, e que ela deveria vir todos os dias. Os irmãos de Flor-do-campo, Príncipe e Leão, não gostaram quando ela disse que iria trabalhar para aquele homem, principalmente porque ela era solteira. Mas a mãe interveio, disse que eles precisavam de dinheiro.
Flor-do-campo não se achava muito preparada para o desafio, mas conseguiu fazer tudo o que No queria. Ele não era exigente com detalhes, mas não gostava de esperar. Se designava uma tarefa, tinha de ser feita imediatamente. Se precisava de um objeto, tinha de estar à mão. Suas refeições podiam esperar por ele, mas não ele por elas. Seu chá tinha que ser forte, e seu banho bem quente. Mas o mais difícil para Flor-do-campo era aprender a ajudá-lo com as tintas. No começo, tremia quando ele lhe pedia para misturar as cores ou para derramá-las na paleta. Depois foi perdendo o medo e descobriu que a melhor maneira de acertar era ir perguntando se já estava bom ou se deveria misturar mais.
No era um artista perfeito. Sabia bem as cores que queira, e como obtê-las. Também sabia exatamente o que queria retratar. Tudo parecia já sair pronto de sua mente. Às vezes sentava-se do lado de fora e fazia alguns esboços no papel, mas geralmente já os desenhava sobre a tela.
Flor-do-campo jamais tivera conhecido homem como aquele, tão inteligente, tão esperto, tão certo do que queria. E tão cheio de inspiração. Ela não sabia criar, mas sabia compreendê-lo. Ele via à sua volta a mesma beleza que ela via. Apaixonou-se por ele, ou melhor, amava-o.
A casa de No iria se povoar de quadros lentamente, mas assim que os primeiros foram pendurados, chamaram a atenção de todos que os viram. Ele não pretendia vender seus quadros a gente de poucas posses, então, algumas vezes apanhava um ou dois e saia por uns dias para vendê-los. Depois de um ano, começaram a aparecer, lentamente, pessoas de longe interessadas em comprar seus quadros. Pessoas bem vestidas, acompanhadas de seus empregados.
Flor-do-campo tentava esconder até de si mesma o que sentia por No, mas, com o tempo, não conseguia mais. Passou a cuidar mais de sua aparência, arrumar melhor as roupas, ajeitar melhor o cabelo. Não se dava conta da armadilha que a esperava.
Um dia, a paixão o amor e o desejo a arrebataram por completo, e ela então prendeu os cabelos da maneira mais bonita que sabia, como uma moça se arruma para o namorado. Fez uma trança com uma mecha de cabelo e deixou-a caída sobre o peito. Naquele dia, No mostrou sua outra face. Não conseguiu se concentrar na pintura, jogou o pincel na mesa e andou até Flor-do-campo. Jogou no chão o que ela segurava, e agarrou-a com toda a força que possuía. Começou a beijá-la e a tentar tirar sua roupa como um bicho no cio, e tão rápido que ela nem teve tempo de se afastar ou dizer uma palavra. Flor-do-campo tentou sair dos braços dele, mas ele era muito forte. Começou então a pedir a ele que parasse, a dizer que era uma moça honrada, implorou-lhe que parasse com aquilo, começou até a chorar, mas ele não lhe ouvia, agarrava-lhe com mais força. Flor-do-campo, horrorizada, tentou afastá-lo, mas ele apanhou um dos potes e bateu-lhe na cabeça. Ela desmaiou por alguns instantes. Quando acordou, No já estava sobre ela, semi-despida, beijando-a, tocando-a, e ela nada mais pode fazer. No segurava seus braços e beijava-a, até que ela começou a sentir desejo. Desejo, vergonha e tristeza. Porque não era assim que ela esperava ser tratada. Inocente, tinha se embelezado na esperança de atrair seu amor. Não era assim que ela queria fazer amor com ele pela primeira vez, rendida como um animal, aprisionada como uma fera, sem ter sequer desfrutado um olhar de desejo. Nem lhe era permitido possuir tais desejos. No era o dono do desejo. Ele a quisera. Ele a tivera. E ponto final.
Flor-do-campo tentou vestir-se o mais rápido que pode, e fugiu. Saiu correndo, chorando, arrependida por ter-se mostrado. Jamais imaginaria que isso iria acontecer. Essa era a face de No que ela não conhecia. Chegou em casa aos tropeços, aos soluços, sem fôlego, sem ar. A mãe tentou falar com ela, mas correu para o quarto, sentou-se no chão e chorou mais. Chorou e se desesperou. A mãe não entendia o que estava acontecendo, mas os irmãos, ao vê-la com os cabelos e as roupas desarrumados, logo perceberam do que se tratava. Começaram a gritar com ela, a amaldiçoá-la e a dizer que aquilo era um castigo por ela desobedecido. Apontavam-lhe o dedo e a chamavam de desonrada. Ela era a culpada de tudo, a vergonha da família.
Flor-do-campo não retornou mais à casa de No, que voltou à desordem de antes. Ele tentou se arranjar como podia, mas era muito difícil para ele continuar sem sua ajuda. Ficou meses sem pintar. Bebeu mais do que devia. Então decidiu ir falar com ela. Ao chegar à casa de Flor-do-campo, viu-a de longe, varrendo a porta. Sua barriga estava enorme. No parou. Seu coração disparou. Não acreditava no que via. Afora entendia porque o tinham olhado de maneira diferente. Levou as mãos ao rosto. Suou frio. Deu meia volta e saiu correndo. Trancou-se em casa. Bebeu até perder a noção de si. Acordou no dia seguinte, no chão. Batiam à porta. Tinha certeza que eram os irmãos de Flor-do-campo. Era um mensageiro com uma encomenda de um rico senhor: uma quadro para ser levado dentro de um mês, que seria ofertado como presente de casamento a um nobre. No teria que trabalhar, fosse como fosse.
Duas semanas depois, Flor-do-campo sentiu as dores do parto. A mãe aqueceu água e colocou-a numa tina a seu lado, pronta a assisti-la no parto. Príncipe e Leão não a deixaram ficar. Tiraram a mãe do quarto à força, arrastaram-na para fora da casa, e disseram que Flor-do-campo teria que ter o filho sozinha, que nenhum deles iria ajudá-la naquela desonra. Os três ficaram fora da casa. Quanto mais a mãe chorava, mais os filhos criticavam a ela e à irmã.
Flor-do-campo conseguiu terminar o parto sozinha. Uma menina. Pequeno Raio-de-Sol. Ela vestiu-a, embrulhou-a, deitou-a a seu lado e adormeceu, exausta. Depois de um tempo, os irmãos deixaram a mãe entrar. Ao lado da tina cheia d’água vermelha estavam as duas. A mãe surpreendeu-se, e retirou a tina. Os irmãos praguejaram, revoltados.
Pequeno Raio-de-Sol nasceu quase em silêncio. Chorou baixinho, como se soubesse que não tinha permissão para nascer. Tampouco tinha males. Como se soubesse que era uma criança pobre, sem direito a adoentar. Depois de uns dias, Flor-do-campo viu-se obrigada a fazer o que não queria. Foi procurar No. Apareceu de manhã, bem cedo, com a bebê nos braços, com o mesmo passo lento e o mesmo jeito delicado. Perguntou se podia voltar, pois tinha que sustentar a menina. No passou os olhos pelas duas rapidamente, e novamente, com o olhar perdido, disse que sim. Flor-do-campo procurou uma caixa em que pudesse improvisar um berço. Trabalhava e cuidava de seu Pequeno Raio-de-Sol. Às vezes, No a chamava e ela não atendia. Ele então ia até ela, irritado, e a encontrava amamentando. Baixava os olhos e saia, envergonhado.
Flor-do-campo jamais batia em sua menina ou gritava com ela. Sempre explicava que tinha de trabalhar, e a deixava no chão com os brinquedos, alguns deles improvisados. Pequeno Raio-de-Sol parecia entender tudo. Não tentava grandes travessuras, nem se afastava. De vez em quando, sorria para No. Ele desviava o olhar, desconcertado.
As encomendas de quadros foram aumentando, e quando Pequeno Raio-de-Sol tinha quase dois anos, No recebeu um convite. Um convite para ir a um grande centro de artes. Seu sonho chegara.
No ia partir dias depois do convite. Mas quando estava arrumando tudo, a consciência apareceu. Disse para Flor-do-campo parar com tudo, que ele não iria mais, que ele não merecia nada bom depois de tudo que tinha feito à ela. Pegou todos os pincéis, inclusive os que ele próprio tinha feito, e quando ia quebrá-los, Flor-do-campo segurou suas mãos:
“Não faça isso, por favor. Você é um grande artista. Não deve abandonar sua arte, deve mostrá-la a todos.”
No abraçou-a, pediu-lhe que o perdoasse, disse que só poderia partir se ela o perdoasse. Flor-do-campo balançou a cabeça. Apenas deixou as lágrimas descerem. Fechou as portas e janelas e ficou com No. Naquela noite, ela e Pequeno Raio-de-Sol não foram para casa.
Quando No estava partindo, quase toda a cidade veio vê-lo, despedir-se dele. A grande partida do grande artista. Dentro da carruagem, no último momento, No chamou Pequeno Raio-de-Sol com um gesto. A pequena correu até ele. Ele lhe disse umas palavras que ninguém ouviu, e ela balançou a cabeça afirmativamente e o abraçou. Ele a beijou, e partiu.
Flor-do-campo tinha desejado, do fundo de sua alma, que No as tivesse levado consigo. Mas já conhecia No. Sabia que ele não faria isso.
Quase dois anos se passaram sem que No retornasse ou mandasse notícias. Então começaram os tormentos de Flor-do-campo. Um de seus vizinhos, Erva-do-mato, começou a pressioná-la, perguntando quando No iria voltar e se casar com ela. Ela dizia que não sabia quando, mas que ele voltaria.
Erva-do-mato a atormentou por meses, e começou a induzir os vizinhos a fazerem o mesmo. Dizia a todos que ela era desonrada, e que devia partir com a filha para a casa de mulheres. Flor-do-campo fugia de suas agressões, até que um dia não conseguiu vencê-lo. Ele entrou em sua casa, entregou-lhe um embrulho de pano e disse:
“É isto ou você e sua filha vão para a casa de mulheres. Você tem até amanhã para decidir.”
O coração de Flor-do-campo gelou. A adaga era mais fria que a morte.
Flor-do-campo saiu de casa bem cedo e deixou seu Pequeno Raio-de-Sol dormindo. No começo da tarde foi encontrada na beira do rio. Seus cabelos negros ondulavam com a água do rio. Os olhos abertos. A adaga no ventre condenado. Raio-de-Sol não iria mais para o prostíbulo. Agora era órfã.
No voltou depois de um ano. Era um outro homem. Tinha uma aparência serena. Chegou sorrindo. Pequeno Raio-de-Sol não o reconheceu, mas a avó disse que aquele era seu pai. No abraçou a menina. Ainda abraçado a ela, perguntou por Flor-do-campo. A mãe baixou os olhos e saiu. No não compreendeu. A esposa de Príncipe contou-lhe o que havia acontecido. A No só restou ir à beira do rio e chorar.
Erva-do-mato não acreditou quando lhe contaram sobre Flor-do-campo. Durante muitos meses passava horas vagando durante o dia ou à noite. Até que, um dia, se ajoelhou à beira do rio, com a adaga na mão. A alma de Flor-do-campo lhe apareceu. E pediu-lhe que não fizesse aquilo, que procurasse ajudar outras pessoas. Ele prometeu a ela que o faria.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Flor-do-campo ainda não reencontrou seu Pequeno Raio-de-Sol.
Erva-do-mato tenta se equilibrar entre dois extremos: abraçou o idealismo, e sempre que pode, procura realizar trabalhos comunitários. Ainda marcado pela consciência, deverá criar e educar os filhos que o destino lhe trouxer de volta.
No, corroído pela culpa, e protegido pela imagem de honestidade e integridade que o reveste, envelhece mais a cada dia, cercado pelos tesouros que continua acumulando.
Assinar:
Postagens (Atom)