sexta-feira, 12 de março de 2010

Saudade da “Paz”
Eu não sei se é porque estou numa fase Floydiana, mas tenho sentido saudade dos anos sessenta e setenta, ando relembrando bastante o que vi e vivi naqueles dias. Tenho pensado não só na estética, mas também no pensamento daqueles tempos. Na verdade, tenho saudade de certas coisas do mundo naqueles anos. Mas não pense que é saudosismo barato, aquele que termina em “no meu tempo era melhor”. Não. Eu também penso na primeira pessoa do plural. Fico refletindo sobre o que aconteceu nesse nosso mundo dos anos sessenta até agora. Sim, é claro que existe um fator individual nesse meu ponto de partida; afinal de contas, nasci nessa época, e além de observar os fatos senti os efeitos, alguns progressistas, outros reacionários, terríveis, principalmente no nosso país. Guerra do Vietnã, Woodstock, Guerra Fria, conflitos na Irlanda, conflitos em Israel, o Muro de Berlim, crise do petróleo. Cresci assistindo o noticiário da televisão e descobrindo outros países. “Pai, o que é comunismo?”, “onde fica o Vietnã?” Sim, hoje temos novas guerras, novos conflitos, novas crises. Alguém falou “mudam só os nomes?” Não vou contestar. Como disse, meu saudosismo não é raso.
E quando penso na primeira pessoa do plural procuro entender o que fizemos e estamos fazendo com nosso mundo. E quando revejo na minha mente diversos fatos, diversas mudanças que ocorreram de lá pra cá, eu chego a conclusão que nasci numa época de transbordamento. Sim, transbordamento. O ser humano acumulou tantas coisas (ou seriam bens? conquistas? idéias? ideologias? realidades?) que resultaram em mais uma explicitação de suas mazelas. A última delas a se exibir, a dançar na nossa frente e rir da nossa cara de espanto tem sido a violência. Esta senhora forte e bem apropriada de grande parte da natureza humana resolveu que, além de dançar e cantar, iria reinar absoluta. “Chega de me esconder”, falou ela. “A festa agora é minha!”. Pois é, essa senhora que vive disfarçada nas dobras do ser humano, suportando eras de contensão e sublimação, até que não caber mais nas nossas vestes e sair... livre e solta. Não sei se podemos culpar algum fator ou comportamento ou tendência em particular pelo que aconteceu. O fato é que, quando tudo o mais transbordou, ela também transbordou. Descarada, tenta seduzir todos os seres humanos que pensam de maneira imediatista (afinal, quem de nós não sente dor de barriga?), aliciar os mais incautos e dominar os delirantes (aqueles que, como ela, já perderam as rédeas). A meu ver, essa senhora já reinou demais pra nossos estômagos.
E se permitem a meu saudosismo falar um pouco de bobagem, gosto de lembrar dos dias em que “paz” e “amor” eram palavras que não causavam embaraço; pois os sentimentos que representam eram mais reverenciados, mais buscados. Dias em que, ainda que de maneira errada, as pessoas tentavam se libertar do consumismo (naqueles dias chamava-se “sociedade de consumo”), em que o grande irmão parecia ainda apenas ficção. Gosto de ser egoísta e lembrar que havia mais espaço livre e menos área urbana, de lembrar que a maioria das crianças brincava nas ruas, e que as noites eram mais tranqüilas. Mas nem tudo era perfeito. Não era só o país que sentia falta de liberdade. Eu também. Pois é, liberdade não é “uma calça velha, azul e desbotada”, é ter que arcar com as conseqüências. Então, eu proponho uma reflexão: como vamos enfrentar a senhora violência, que resolveu reinar nos últimos anos? É claro que vamos precisar de muita sabedoria para derrotá-la, dominá-la, vencê-la. Vamos ter muito que pensar, discutir, agir. Mas creio que temos as armas, ou melhor, as forças. Só não podemos fugir do espelho. Espelho na primeira pessoa do plural. Ele reflete nossa imagem.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Pequeno Raio-de-Sol

Pequeno Raio-de-Sol

Não posso precisar a época em que essa história aconteceu. Só sei que se passou há séculos no Oriente, talvez no Japão.

Flor-do-campo era uma moça que vivia com a mãe e dois irmãos numa cidade muito bonita, à beira de uma região montanhosa. Um rio límpido descia a montanha e cruzava a cidade por trás. Nem Flor-do-campo nem seus irmãos sabiam ler ou escrever. Viviam da terra, como tinham feito seus antepassados.

Flor-do-campo não tinha pretendentes, embora fosse bonita, nem fora prometida à ninguém. Mas isso não a incomodava. Vivia cada dia de uma vez, saboreando a beleza daquele lugar, de onde nunca tinha saído. Seus irmàos eram sérios e severos, e sua mãe, conciliadora.

Um verão trouxe à Flor-do-campo tudo o que ela jamais buscara ou cobiçara.
Não era muito comum que pessoas das cidades grandes viessem visitar aquele lugar, mas naquele verão isso aconteceu. Um artista chegara à cidade, com propósito de ficar lá por uns tempos, quem sabe, para pintar a beleza da região.

Flor-do-campo não o vira quando chegou, nem tampouco no dia seguinte. Passaram-se dias até que ouvisse sobre ele, sobre seu nome ou o que fazia. No era um um homem de temperamento difícil. Mais de uma, duas ou três mulheres do lugar tinham ido trabalhar para ele, mas nenhuma delas tinha permanecido. Exigia demais, diziam. Queria que limpassem e arrumassem a casa, fizessem sua comida, preparassem seu banho e ainda o ajudassem com todas aquelas tintas e pincéis. Nenhuma suportava.

Flor-do-campo ouviu os fatos da boca de uma das vizinhas, quieta, calada. Não emitiu nenhuma opinião, mas a história não lhe saiu da cabeça. No dia seguinte, saiu de casa para ir apanhar ervas, e ao colocar os pés fora de casa veio-lhe à mente a ideia de ir aonde No estava morando. Mesmo que não conhecesse a cidade teria descoberto seu canto. A casa estava em desordem do lado de fora, e No, ranzinza, praguejava e xingava o vento, enquanto fazia ponta em um pedaço de galho, para fazer um pincel, talvez. Flor-do-campo se aproximou lentamente, e com toda delicadeza perguntou-lhe se ele estava precisando de uma ajudante, de uma mulher para cuidar da casa. No levantou os olhos, e ao ver o rosto de Flor-do-campo, seu mau humor sumiu por uns instantes. Estava determinado a mandá-la sumir dali, ir para o inferno. Mas quando olhou para ela, seus olhos ficaram perdidos, viraram em todas as direções. Tentava encará-la, mas não conseguia. Disse então que precisava, sim, de uma ajudante, e que ela poderia começar no dia seguinte. Disse o quanto pagaria, e que ela deveria vir todos os dias. Os irmãos de Flor-do-campo, Príncipe e Leão, não gostaram quando ela disse que iria trabalhar para aquele homem, principalmente porque ela era solteira. Mas a mãe interveio, disse que eles precisavam de dinheiro.

Flor-do-campo não se achava muito preparada para o desafio, mas conseguiu fazer tudo o que No queria. Ele não era exigente com detalhes, mas não gostava de esperar. Se designava uma tarefa, tinha de ser feita imediatamente. Se precisava de um objeto, tinha de estar à mão. Suas refeições podiam esperar por ele, mas não ele por elas. Seu chá tinha que ser forte, e seu banho bem quente. Mas o mais difícil para Flor-do-campo era aprender a ajudá-lo com as tintas. No começo, tremia quando ele lhe pedia para misturar as cores ou para derramá-las na paleta. Depois foi perdendo o medo e descobriu que a melhor maneira de acertar era ir perguntando se já estava bom ou se deveria misturar mais.

No era um artista perfeito. Sabia bem as cores que queira, e como obtê-las. Também sabia exatamente o que queria retratar. Tudo parecia já sair pronto de sua mente. Às vezes sentava-se do lado de fora e fazia alguns esboços no papel, mas geralmente já os desenhava sobre a tela.

Flor-do-campo jamais tivera conhecido homem como aquele, tão inteligente, tão esperto, tão certo do que queria. E tão cheio de inspiração. Ela não sabia criar, mas sabia compreendê-lo. Ele via à sua volta a mesma beleza que ela via. Apaixonou-se por ele, ou melhor, amava-o.

A casa de No iria se povoar de quadros lentamente, mas assim que os primeiros foram pendurados, chamaram a atenção de todos que os viram. Ele não pretendia vender seus quadros a gente de poucas posses, então, algumas vezes apanhava um ou dois e saia por uns dias para vendê-los. Depois de um ano, começaram a aparecer, lentamente, pessoas de longe interessadas em comprar seus quadros. Pessoas bem vestidas, acompanhadas de seus empregados.

Flor-do-campo tentava esconder até de si mesma o que sentia por No, mas, com o tempo, não conseguia mais. Passou a cuidar mais de sua aparência, arrumar melhor as roupas, ajeitar melhor o cabelo. Não se dava conta da armadilha que a esperava.

Um dia, a paixão o amor e o desejo a arrebataram por completo, e ela então prendeu os cabelos da maneira mais bonita que sabia, como uma moça se arruma para o namorado. Fez uma trança com uma mecha de cabelo e deixou-a caída sobre o peito. Naquele dia, No mostrou sua outra face. Não conseguiu se concentrar na pintura, jogou o pincel na mesa e andou até Flor-do-campo. Jogou no chão o que ela segurava, e agarrou-a com toda a força que possuía. Começou a beijá-la e a tentar tirar sua roupa como um bicho no cio, e tão rápido que ela nem teve tempo de se afastar ou dizer uma palavra. Flor-do-campo tentou sair dos braços dele, mas ele era muito forte. Começou então a pedir a ele que parasse, a dizer que era uma moça honrada, implorou-lhe que parasse com aquilo, começou até a chorar, mas ele não lhe ouvia, agarrava-lhe com mais força. Flor-do-campo, horrorizada, tentou afastá-lo, mas ele apanhou um dos potes e bateu-lhe na cabeça. Ela desmaiou por alguns instantes. Quando acordou, No já estava sobre ela, semi-despida, beijando-a, tocando-a, e ela nada mais pode fazer. No segurava seus braços e beijava-a, até que ela começou a sentir desejo. Desejo, vergonha e tristeza. Porque não era assim que ela esperava ser tratada. Inocente, tinha se embelezado na esperança de atrair seu amor. Não era assim que ela queria fazer amor com ele pela primeira vez, rendida como um animal, aprisionada como uma fera, sem ter sequer desfrutado um olhar de desejo. Nem lhe era permitido possuir tais desejos. No era o dono do desejo. Ele a quisera. Ele a tivera. E ponto final.

Flor-do-campo tentou vestir-se o mais rápido que pode, e fugiu. Saiu correndo, chorando, arrependida por ter-se mostrado. Jamais imaginaria que isso iria acontecer. Essa era a face de No que ela não conhecia. Chegou em casa aos tropeços, aos soluços, sem fôlego, sem ar. A mãe tentou falar com ela, mas correu para o quarto, sentou-se no chão e chorou mais. Chorou e se desesperou. A mãe não entendia o que estava acontecendo, mas os irmãos, ao vê-la com os cabelos e as roupas desarrumados, logo perceberam do que se tratava. Começaram a gritar com ela, a amaldiçoá-la e a dizer que aquilo era um castigo por ela desobedecido. Apontavam-lhe o dedo e a chamavam de desonrada. Ela era a culpada de tudo, a vergonha da família.

Flor-do-campo não retornou mais à casa de No, que voltou à desordem de antes. Ele tentou se arranjar como podia, mas era muito difícil para ele continuar sem sua ajuda. Ficou meses sem pintar. Bebeu mais do que devia. Então decidiu ir falar com ela. Ao chegar à casa de Flor-do-campo, viu-a de longe, varrendo a porta. Sua barriga estava enorme. No parou. Seu coração disparou. Não acreditava no que via. Afora entendia porque o tinham olhado de maneira diferente. Levou as mãos ao rosto. Suou frio. Deu meia volta e saiu correndo. Trancou-se em casa. Bebeu até perder a noção de si. Acordou no dia seguinte, no chão. Batiam à porta. Tinha certeza que eram os irmãos de Flor-do-campo. Era um mensageiro com uma encomenda de um rico senhor: uma quadro para ser levado dentro de um mês, que seria ofertado como presente de casamento a um nobre. No teria que trabalhar, fosse como fosse.

Duas semanas depois, Flor-do-campo sentiu as dores do parto. A mãe aqueceu água e colocou-a numa tina a seu lado, pronta a assisti-la no parto. Príncipe e Leão não a deixaram ficar. Tiraram a mãe do quarto à força, arrastaram-na para fora da casa, e disseram que Flor-do-campo teria que ter o filho sozinha, que nenhum deles iria ajudá-la naquela desonra. Os três ficaram fora da casa. Quanto mais a mãe chorava, mais os filhos criticavam a ela e à irmã.

Flor-do-campo conseguiu terminar o parto sozinha. Uma menina. Pequeno Raio-de-Sol. Ela vestiu-a, embrulhou-a, deitou-a a seu lado e adormeceu, exausta. Depois de um tempo, os irmãos deixaram a mãe entrar. Ao lado da tina cheia d’água vermelha estavam as duas. A mãe surpreendeu-se, e retirou a tina. Os irmãos praguejaram, revoltados.

Pequeno Raio-de-Sol nasceu quase em silêncio. Chorou baixinho, como se soubesse que não tinha permissão para nascer. Tampouco tinha males. Como se soubesse que era uma criança pobre, sem direito a adoentar. Depois de uns dias, Flor-do-campo viu-se obrigada a fazer o que não queria. Foi procurar No. Apareceu de manhã, bem cedo, com a bebê nos braços, com o mesmo passo lento e o mesmo jeito delicado. Perguntou se podia voltar, pois tinha que sustentar a menina. No passou os olhos pelas duas rapidamente, e novamente, com o olhar perdido, disse que sim. Flor-do-campo procurou uma caixa em que pudesse improvisar um berço. Trabalhava e cuidava de seu Pequeno Raio-de-Sol. Às vezes, No a chamava e ela não atendia. Ele então ia até ela, irritado, e a encontrava amamentando. Baixava os olhos e saia, envergonhado.

Flor-do-campo jamais batia em sua menina ou gritava com ela. Sempre explicava que tinha de trabalhar, e a deixava no chão com os brinquedos, alguns deles improvisados. Pequeno Raio-de-Sol parecia entender tudo. Não tentava grandes travessuras, nem se afastava. De vez em quando, sorria para No. Ele desviava o olhar, desconcertado.

As encomendas de quadros foram aumentando, e quando Pequeno Raio-de-Sol tinha quase dois anos, No recebeu um convite. Um convite para ir a um grande centro de artes. Seu sonho chegara.

No ia partir dias depois do convite. Mas quando estava arrumando tudo, a consciência apareceu. Disse para Flor-do-campo parar com tudo, que ele não iria mais, que ele não merecia nada bom depois de tudo que tinha feito à ela. Pegou todos os pincéis, inclusive os que ele próprio tinha feito, e quando ia quebrá-los, Flor-do-campo segurou suas mãos:
“Não faça isso, por favor. Você é um grande artista. Não deve abandonar sua arte, deve mostrá-la a todos.”

No abraçou-a, pediu-lhe que o perdoasse, disse que só poderia partir se ela o perdoasse. Flor-do-campo balançou a cabeça. Apenas deixou as lágrimas descerem. Fechou as portas e janelas e ficou com No. Naquela noite, ela e Pequeno Raio-de-Sol não foram para casa.

Quando No estava partindo, quase toda a cidade veio vê-lo, despedir-se dele. A grande partida do grande artista. Dentro da carruagem, no último momento, No chamou Pequeno Raio-de-Sol com um gesto. A pequena correu até ele. Ele lhe disse umas palavras que ninguém ouviu, e ela balançou a cabeça afirmativamente e o abraçou. Ele a beijou, e partiu.

Flor-do-campo tinha desejado, do fundo de sua alma, que No as tivesse levado consigo. Mas já conhecia No. Sabia que ele não faria isso.

Quase dois anos se passaram sem que No retornasse ou mandasse notícias. Então começaram os tormentos de Flor-do-campo. Um de seus vizinhos, Erva-do-mato, começou a pressioná-la, perguntando quando No iria voltar e se casar com ela. Ela dizia que não sabia quando, mas que ele voltaria.

Erva-do-mato a atormentou por meses, e começou a induzir os vizinhos a fazerem o mesmo. Dizia a todos que ela era desonrada, e que devia partir com a filha para a casa de mulheres. Flor-do-campo fugia de suas agressões, até que um dia não conseguiu vencê-lo. Ele entrou em sua casa, entregou-lhe um embrulho de pano e disse:

“É isto ou você e sua filha vão para a casa de mulheres. Você tem até amanhã para decidir.”

O coração de Flor-do-campo gelou. A adaga era mais fria que a morte.

Flor-do-campo saiu de casa bem cedo e deixou seu Pequeno Raio-de-Sol dormindo. No começo da tarde foi encontrada na beira do rio. Seus cabelos negros ondulavam com a água do rio. Os olhos abertos. A adaga no ventre condenado. Raio-de-Sol não iria mais para o prostíbulo. Agora era órfã.

No voltou depois de um ano. Era um outro homem. Tinha uma aparência serena. Chegou sorrindo. Pequeno Raio-de-Sol não o reconheceu, mas a avó disse que aquele era seu pai. No abraçou a menina. Ainda abraçado a ela, perguntou por Flor-do-campo. A mãe baixou os olhos e saiu. No não compreendeu. A esposa de Príncipe contou-lhe o que havia acontecido. A No só restou ir à beira do rio e chorar.

Erva-do-mato não acreditou quando lhe contaram sobre Flor-do-campo. Durante muitos meses passava horas vagando durante o dia ou à noite. Até que, um dia, se ajoelhou à beira do rio, com a adaga na mão. A alma de Flor-do-campo lhe apareceu. E pediu-lhe que não fizesse aquilo, que procurasse ajudar outras pessoas. Ele prometeu a ela que o faria.
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Flor-do-campo ainda não reencontrou seu Pequeno Raio-de-Sol.

Erva-do-mato tenta se equilibrar entre dois extremos: abraçou o idealismo, e sempre que pode, procura realizar trabalhos comunitários. Ainda marcado pela consciência, deverá criar e educar os filhos que o destino lhe trouxer de volta.

No, corroído pela culpa, e protegido pela imagem de honestidade e integridade que o reveste, envelhece mais a cada dia, cercado pelos tesouros que continua acumulando.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

um poema solto para um homem não solto...

Para o Homem-vaso

Como pode um Homem
ter dois corações habitados?
Um, de vermelhos e vasos
fala e se move
O outro, de pedra escura
cala e morde
Pensam que um
é mais que outro?
Fundiram-se doloridos,
socorridos
um ao outro
Como pode um Homem
ter dois corações habitados?
Eu, quanto os vi
sei que é verdade
Tão bela habilidade.

14-11-04

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

... Silêncio

Tempos Urbanos:



poemas de cidade

grande e pequena



Velocidade

Cada instante corre
para ser fotografado
captado pela objetiva da vida
Ódio e amor na cidade
onde os carros são o amor
e as pessoas são o ódio.

09-09-83


Luz-Dormente

A cidade cala
no escuro fala
neutra em anúncios

o que se vende!
o que se surpreende!
o que se compreende ?
até o dia
que se estende ...

um som surdo propaga
a calmaria, a paga
da noite ser viva
do dia ser morto

Quantas luzes se calam
dentro de nós ?

27-03-85

A Borboleta no asfalto

A borboleta voa
no solo da cidade
se arrasta pelo azul
do sonho da metrópole
espremida entre os espaços
do medo, da crueldade
do vão da fragilidade.

(A borboleta sonha ser um leão)

09-02-85


Viagens

Vejo São Paulo
de óculos escuros
e Miami
de céu azul
com olhos lavados
de poluição
e o peito em premissa
de emoção.

20-02-85


Ci-dade


Cidade,
caridade...
“Cara cidade:”
Cai a cidade
dada a idade
de cada cavidade
cai a vaidade
Cadê a cidade ?

20-02-85


Áreas

E lá estacionamos nós
robôs de lanchonete
comendo a mesma carne
deglutindo o mesmo doce
o passo parecido
à moda moldados
os cabelos cortados

(Pareço minha pera
em meio ao produto)

Mas as idéias,
anormais, iguais, contrárias
nos embalam com árias
de interiores distintos.

15-03-85


Noite


...(Uma luz longa e lânguida


leva seus lábios aos lares


em beijos, desejos e consumo)...

27-03-85


Tarde no centro da cidade


Divago, vago
um poema na cabeça
e poeira nos pés ...

09-04-85


À noite
ouço vozes
Vozes de vivos
vozes de tv
vozes de cães,
de canções
vozes minhas
vozes de aviões
em linhas
voando sobre nossas
vozes sem direções
vão e voltam
em volumes vários
de vales, de valas
de vilas
de varões, valetes
de voil, de seda
(tudo igual)

que valor têm
vozes movendo assim,
pulsando em volta de mim ?

10-04-85


Agonia de um país

O que se decide
por trás das portas
de capitais
por trás das portas
dos hospitais
o presidente vive
ou morre ?
o que será de nós,
pobres mortais ?

10-04-85


Grandeza

O complicado, o complexo
o simplificado
ciscam desde o chão do concreto
demarcado, riscado, arriscado
“O fabuloso poder do pecúlio”
E nós ?
Somos espelhos sujos
da opulência
de face nobre e pobre.

12-04-85


Nem lembrança ?

O mato domina
a moradia abandonada
será que está morta a mina?
será que não há mais nada ?

19-04-85


Sal Sujo (seja a sujeira da cidade)

O pó preto (ou dourado, verde
ou cor de metal)
aprisiona o real, o irreal
e até o belo sal
(nos bares)
fica na imundice total.

19-04-85


Excursão perdida

Quando ouço os jovens
no seu ensejo
(o vendedor e o papagaio)
vôo para vidas que não vejo

“Quer saber a sorte, moça?”

Quantos de nós
já não viveram
num país de realejo?

19-04-85


Lugares


Los Angeles
São Paulo
Paris,
New York

todas batem
dentro de mim
todas existem
(entre pontes)
no pico do prédio
no carro do rico
no mendigo
na mulher...
na prostituta
nas rédeas
de nossas mãos
sem brilhantes
nas sessões
dos homens de negócio

Os veículos – valem mais
que os vínculos

Quero trilhar
tudo do alto
e tocar o asfalto
com vossas valias.

21-04-85


Rodo

Que sincero pôr-do-sol de sexta!
todos esperamos pelo ônibus de 24 horas
amanhã quem sabe vamos sair
moleques maltrapilhos mendigam menos
evitamos até as tragédias, os trabalhos
as várias rodoviárias
que nos viram em passagens
e caretas para tudo.

26-04-85


Limites ou Alturas ?

É a primeira vez
que vejo as vilas do alto
nem estou no chão
nem dei um salto
tetos ornam os templos
os cabelos barram-me as retinas
como cortinas
que nos separam
de outros espaços

Até onde nos confinam os limites?

05-05-85


História do Movimento

Primeiro foi a biga,
depois a carruagem,
a bicicleta,
o carro

Ser inteligente
continua andando a pé
em protesto
em passeata
em parada
e a buzina é também bandeira.

06-05-85


Potência ou Inocência? (segredos)

O combustível caminha pela calçada
O homem (muito comum)
desliza pelo asfalto
nunca se sabe
quem é mau
quem é controlado

(O pano sempre cobre
o monumento
antes dele ser
mostrado.)

10-05-85


Av. Brasil
(Centro)

O nome do governante
do ente, antes doente
é ainda pendente
no muro que marca o futuro (?)


19-05-85


Papel-
Câncer-
Concreto

A pólis se propaga
como um câncer
pleno de apanhadores
de papéis.

19-04-85


Só tenho um retrato
do meu ante-passado
hoje é foto-instantânea
reveladora (?), re-velada,
um instante basta
pra construir o momento
pra corroer o guardado.

24-04-85

... Silêncio

Ser

(Poemas da raça humana)



Cada dia morre um anjo

Cada ser se guarda num canto
em cada ilha guarda um encanto
de sentir sufocado
na dor do espanto
o velho pranto, num pano
encerrado, inundado
do ardor do desencanto.
E quando as trombetas avisam
os sentidos se paralisam:
-Guarda a emoção em canto
que um anjo comporta,
se um pequeno tempo
te bate à porta!
Corta-lhe as asas qual simpatia
que inunde e invada
outra ilha vazia
e descubra outros anjos
que o corpo escondia:
o amor, o ódio e alegria
se consumam na glória
de sentimento derramado
que mantenha armado
amarrado com cuidado
secando a seiva
do ser alado
pois que padeça
do oculto pecado
de deixar-se fluir, encantado
e espalhe no mar
todo o emaranhado
que o cerca na ilha,
acorrentado.
Que não goze o gosto
de ver exposto o rosto
do anjo da ilha ao lado.
E se guarde num legado
a quem o tenha criado,
santificado.
E o chamou sentimento guardado,
encanto morto, eternizado.
24-08-03


Juventude


A motocicleta me ilumina

com seus olhos cor de velocidade.

Não tem tempo, nem idade:

só vontade.

24-10-83



Máquina


O automóvel desliza na praia
suave, sozinho
Perdido
na imensidão do mar.

Lá fora, a canção das ondas,
Genitora
Aqui dentro a canção dos homens,
destrutiva.

09-12-83



Partida

Velha casa
velhos móveis
velha música
velhos sons
velhas vidas
sonhos idos
cantos findos
vida ilusão

18-12-83


As luzes do lado norte


Em cada lado da selva
há um corte
um rasgo de progresso forte
Luzes da química, da eletrônica,
da morte
corações de propaganda e alquimia
e nossos corações à revelia
passam desapercebidos, contundidos
seguem paralelamente desviados
para o lado de um destino só.

08-01-84



Amor-Noturno

No meio da noite
clamo por ti
proclamo-te
meu inteiro amar
meu único cantar
na canção do amor
sem verso e sem som.

21-02-84


Uma hora, duas horas
três segundos

A vida passa
o tempo fica
O tempo passa
a vida fica

Um deles
tem que passar
O outro
passa sozinho

Quatro horas, cinco horas
seis segundos

A vida pulsa
no coração do tempo
O tempo cabe
na extensão da vida

O tempo conta
a vida passa
A vida conta
e o tempo passa

Dez horas, Dez horas
uma hora
Horas certas
vidas erradas
vidas perdidas
horas guardadas
zero hora
zero hora
zero hora ...

O tempo começa
a vida
acaba.

07-04-84


Marcha

Às vezes parecemos
exércitos de robôs
caminhando, cegos
construindo, construindo
demolindo, demolindo
vagando sob a luz
da estrela divina.

01-05-84


Papel-Eletrônica

Cenário de papel
programa de papel
televisão de papel

Encanto de papel
beleza de máquina
mentira cor de céu

Sorriso branco pálido
telespectador inválido
linda imagem cruel.

19-05-84



Morro da Serra de Santos

As casas no morro
As luzes no morro
os lares onde morro
de fome, de frio
Na favela, em coro
acende-se a vela
em honra do dia santo
A prece cresce
são seis hras
são dois dias
são cem vidas
Lá embaixo não acho
lugar onde brilhar
embaralho, desencaixo
a visão sem fim
E cada edifício é um facho
de força sobre mim.

22-07-84


Elos sentidos

Não sei onde encontrar
os elos de meu mundo
só sei que estão
entre meus pés,
minha cabeça e meu coração.

27-12-84


Mudança

Monumento de prata e cobre
relógio que me recobre
na luz nova
de cada manhã
ainda estarás vivo,
amanhã?

12-01-85


Versinho de um minuto

O relógio me guarda
a hora e o dia
porque nunca
sei quando sou.

12-01-85



Caracóis


Somos delicados caracóis
correndo com nossas casas
duras e rijas
atrás dos ombros
visando a liberdade
vazando a interioridade
e por dentro, os escombros
aos poucos, roucos
refazem a fragilidade
gritam a desconformidade
do nosso escorrer.

18-01-85


Papel passado

Velhos anúncios
velhos jornais
velhos destinos
que não se alugam mais...

10-02-85


Devaneios de árvores


Vivemos como árvores
com pés presos ao solo
notas e ouros nos enfeitam
floreiam o colo
e os pássaros nos tocam, nos
deslocam
aos nossos devaneios de verão.


(Árvores sós e lindas
têm devaneios no chão ...)

23-02-85


Amigos silenciosos

Alguns seres são
nossos ídolos de bronze
de barro e papel
presos nas paredes
soltos nas telas
Não lhes sorvemos
senão o valor
Não lhes ouvimos
que as aventuras
Mas lhes sentimos
mais vida e morte.

“Artistas são
seres vivos nas paredes
e fãs são
ídolos mortos no chão”.

13-03-85


Protesto (sem) poema

Sisudos
saiam da cama
saiam da calma
saiam dos bares
soltem dos bancos
quebrem o copo
vivam
revivam o esquema
revirem o problema
invertam o fonema
respirem, transpirem
rasguem o verso mal visto
o investimento
o revestimento em vão
de nossos vidros
ah, vivos...
não há parágrafo
nem há linha
tampouco poeminha
só vontade minha
e sua, então (?)

14-03-85


Pre-visão

Hoje é um dia fértil
crescerão árvores imensas
Amanhã não sei
se estarão de pé.

14-03-85


Histórias

Vê e ouve
os relatos que te contam
e saberás
quem somos (?) então.

25-03-85


Liberdade (?)


Pareço livre
de minhas cadeias
mas não sei
o que fazer
do sangue que corre
em minhas veias.

10-04-85


Luta Livre

Todo dia
há uma luta
preparada pra nós
junto da porta.
Joguemos a luva
e regressemos dela
(De preferência
com sangue)
como sempre.

17-04-85



Nós

quero entrar dentro
da concha, do caracol,
ser uma ostra só
tu não sabes de mim
nem mesmo o sol...

21-04-85


Ser Camaleão

Já estive triste
já tive medo
já segui só
já corri recusada
já naveguei no nada
(assustada)
Não nos parecemos, agora?

Hoje tenho um casaco
de cada criatura
que vivi.
Ou temos.

23-04-85


Defesa

A cabeça carece
de momentos líricos
apesar do café
da cerveja
do teto traído, destruído
do tempo atulhado
uma linha
sobeja.

19-04-85



Diante da cruz

Ouço várias verdades
três mil histórias
tristes memorias
figuro em todas faces
dos limites do meu lar
mas, no exterior
onde a linguagem é outra
e os mortos são os mesmos
até menos
a sombra da luz,
creia, é uma cruz.

24-04-85


Fabricandos

Delineamo-nos andróides (de fibras)
o intelecto é maquina
e as emoções são sementes.
Ferramentas leves do tempo.
Operários. Todos.

12-05-85

terça-feira, 28 de julho de 2009

Fortuna

Fortuna

Os navios chegaram ao nascer do dia. Quase silêncio... Canto dos pássaros. Um canto quieto, contido, quase triste. Tão furtivamente quanto aporta o navio, descarregam-se os mercenários. As armas vão à frente de suas cabeças, quebrando folhas e galhos. Caminham sem parada, como quem sabe exatamente aonde vai. Mata adentro. Mata adentro.
(...)
Dentro da mata. Um homem negro, alto, forte, ajoelha-se sobre uma pele de leão. Segura nas mãos um punhado de búzios. Sacode-os, deixa-os cair sobre a pele. Olha atentamente para a pele. Recolhe os búzios. Deixa-os cair de novo. Repete o ritual várias vezes, até que, cansado, resolve descansar um pouco. Envolve os búzios em um pedaço pequeno de pele e os coloca ao lado da pele de leão. Está sentado ao pé de uma árvore, é noite, e uma fogueira acesa bem próxima evita que animais cheguem perto. Uma mulher sai de uma cabana bem próxima e vem até ele. Ele está sentado no chão, os braços apoiados nos joelhos, olhando para o nada. Ela se ajoelha a seu lado. Tem o olhar apreensivo e preocupado que tem todas as mulheres de guerreiros. Ele balança a cabeça negativamente. Nada... nenhuma visão... nenhum sinal... nada... nenhuma pista sobre o futuro da tribo... nenhuma...
A mulher do guerreiro volta para a cabana. Não dormiu, não dormirá. Aguardará que ele venha com algum resultado. Sabe que eles tem todos sob sua guarda espiritual, que todos querem saber se a caça será boa na próxima estação, se as águas e as frutas serão abundantes. Devem saber o que esperar, a quem pedir, a quem agradecer... E para saber isso vão esperar a noite toda se for preciso.
(...)
Os mercenários já estão mais perto de seu destino. Já avistam as aldeias, mas não se aproximam. Vão se esconder feito bichos, para atacar como bichos, dando bote...
(...)
O guerreiro volta aos búzios. Volta e pergunta. Volta e pergunta. Insistentemente pergunta... Sua aflição vai aumentando e as forças de seu coração parecem se exaurir. A dor toma conta de seu peito, uma dor tão lancinante, como se uma fera estivesse mordendo seu corpo. Uma dor que parece que nunca mais vai abandoná-lo...
O dia nasce. Os raios do sol nunca lhe causaram tristeza, mas agora causam. Sua companheira vem ao pé da árvore. Ele sente vontade de chorar, mas se controla. Logo todos vão chegar e ele não tem resposta nenhuma, nenhuma... E isso nunca acontecera antes. O guerreiro leva as mãos ao rosto, mas quando as tira o que vê é exatamente o que mais teme. Não está num sonho. Não está num pesadelo. È tudo verdade. Será que os Deuses os abandonaram???????
O guerreiro não sabe o que fazer. Os outros chegam e querem saber o que viu. Ele diz que tentou a noite toda e ainda não viu nada. Pede que esperem mais. Vai tomar um banho de cachoeira antes de recomeçar. Atordoado, recolhe suas coisas e sai apressado.
Os homens e mulheres mais maduros ficam assustados. Correm uns até a cabana dos outros. As noticias não soam boas. Sabem o que significa não ter uma só palavra dos céus. Algumas mulheres choram, outras se recolhem para rezar. Alguns homens pegam as armas. Outros vão se juntar ao grande guerreiro na cachoeira.
(...)
Os mercenários levantam ancora. Já fizeram a primeira parte de seu serviço odioso. A tribo acorrentada nos porões do navio, junto com outra tribo próxima. Muitos foram mortos. Não terão funeral digno de heróis. O grande guerreiro queria Ter morrido com eles. Pergunta-se por que os Deuses o pouparam. Pergunta-se por que os outros não se revoltam e o matam ali mesmo, por que não o enforcam com as correntes... Tudo o que sente dentro de si é que não conseguiu salvar seu povo, não conseguiu salvar seu povo... esse pensamento perduraria em sua cabeça até o fim de seus dias.
A companheira do grande guerreiro diz a ele que todos precisam dele, que ele sempre será o chefe deles, não importa onde estejam. E assim será.
(...)
A tribo se reúne à noite, em volta da fogueira. Não possuem mais lanças, nem escudos, nem peles de animais. Vestem-se com roupas de pano, que lhes cobrem as pernas, o dorso, às vezes também os braços. Agora os brancos estão dormindo e eles podem se reunir, como faziam em sua terra. O chão forrado com folhas, sentam em tocos, fumam cachimbos de madeira, não tão bonitos nem enfeitados com penas, como os que costumavam fazer, mas de formato semelhante. Durante o dia têm de falar a língua dos brancos, mas à noite conversam em volta da fogueira, falando sua língua. Chamam-se pelos seus nomes, sorriem e cantam as canções que a pouca alegria permite. Sentam-se em tocos de madeira, como faziam na floresta. Os brancos não lhes deixam ter tambores para tocar, mas não podem impedi-los de se reunir e conversar. Os pequenos escutam o linguajar dos mais velhos, aprendem com eles. Amanhã terão de falar a língua dos brancos.
Tocar a terra e senti-la com as mãos faz com que se lembrem de sua aldeia. O cheiro desta terra que habitam agora não é o mesmo, nem o calor, nem a espessura. Os brancos não são livres. Vivem trancados em casas, em terras com cercas, e suas armas são frias e pesadas. Os brancos não sabem o que é liberdade, por isso escravizam os negros. Rezam juntos, mas não são uma tribo, moram distantes uns dos outros, muito distantes. Não sabem dançar nem sentir alegria, como o povo da floresta sentia. Suas danças e suas músicas não são alegres como as do povo da floresta. Por isso, hoje, o povo da floresta canta mais triste também. Porque vive numa terra triste. Mas ainda é um povo. E sempre será.
(...)
A companheira do grande guerreiro já não pode mais andar. Os anos de trabalho roubaram-lhe as forças, e ela passa os dias e noites na cama. Trabalha ainda com as mãos, não quer ficar parada, diz que o dia não passa se ficar só olhando pela janela. As mulheres mais novas vem conversar com ela, vem ajudá-la a se cuidar e se alimentar, vem pedir conselhos e ensinamentos. O dia passa logo assim. Seu guerreiro também a ajuda. Apesar da idade avançada, ele a carrega no colo. As forças não o abandonaram, deve ser uma compensação dos Deuses. Ela não pode se unir aos outros todas as noites porque as dores nem sempre deixam, mas quando o faz, vai nos braços de seu guerreiro. Quando ele chega com ela nos braços, todos ficam em silêncio, abrem caminho, e preparam um assento para ela. Vem pedir a benção dos dois. Ela nem acredita que tanto tempo passou, que não é mais jovem, que estão lhe pedindo a benção, que ela agora é senhora. Para ela, será sempre como aqueles dias da floresta, em que os homens matavam as feras com suas lanças e seus escudos. Para ela, seu guerreiro será sempre Rei. O sol vai brilhar acima da copa alta das árvores. Ela sabe que um dia vai partir, e então poderá voltar à sua terra e nadar em sua cachoeira, junto a seus Deuses amados.
(...)
O grande guerreiro coloca uma flor na terra. Veio visitar sua amada companheira. Fala com ela, conta-lhe tudo o que está acontecendo com os filhos da tribo. Pede a ela que volte. Agradece a ela por todos os dias junto dele. Todos os dias.
(...)
Muito anos se passam antes que o grande guerreiro parta. Ele parte sentindo-se ainda culpado por sua tribo ter sido rendida. Parte sem compreender porque os Deuses assim quiseram. Parte sem saber a importância que tinha para os filhos da tribo. Parte sem saber que eles não seriam mais um povo se não tivessem seu Rei para reverenciar. E isso, os brancos não lhes tiraram.

domingo, 5 de julho de 2009

O Porão

A primeira música que ouviu naquele sábado não lhe deixou esquecer a noite. “Será que vou te ver hoje à noite, num trem no centro da cidade?”
Em sua cabeça, já tinha tido todo tipo de pensamento sobre o que poderia acontecer naquela noite. Sabia que corria o risco de ficar esperando na estação, como uma tola. Para isso, tinha até um “plano b”. Mas estava decidida. Tinha de conhecer o território dele. Só assim para conhecê-lo de fato.
No final da tarde, juntou uma muda de roupa, maquiagem, escova de dentes, e colocou na bolsa. Arrumou-se como de costume, mas com uma estranha sensação. Nunca se sentira assim antes. Vestir-se, perfumar-se, e Ter a certeza de que poderia ser tudo em vão... Era como executar um ritual mecanicamente, sem qualquer satisfação. Era como se estivesse indo para um julgamento, uma entrevista de emprego, um exame de seleção, um exame de escola... tudo, menos um encontro amoroso. E a música na cabeça o dia todo: “Será que vou te ver hoje à noite, num trem no centro da cidade?”
Esforçou-se para não perder a hora, mas mesmo assim atrasou-se um pouco. Manteve os olhos abertos no metrô. Podia ser que se encontrassem no meio do caminho, como fora na primeira vez que saíram juntos. E a tensão aumentava a cada estação.
Quando chegou ao seu destino, doíam-lhe o estômago e a bexiga. E nenhum banheiro por perto. A estação era cercada por residências. Sim, talvez a única estação cercada por residências! Os minutos pareciam horas... Bem, só lhe restava decidir até que hora esperar. Até as nove? As dez?
Após uns vinte minutos de espera, o “plano b” foi engavetado. Ele acenou de longe. Talvez tivesse medo que ela fosse embora... Cumprimentou-a com um beijo no rosto. Seguiram para a casa dele. Local íngreme. Ela tinha vindo com um salto apropriado, como ele lhe pedira. Cada passo parecia uma eternidade.
Chegaram à casa. Uma rua com muitos sobrados. Pararam diante de um deles, desceram para a parte baixa da casa. Um porão, na realidade. Um porão onde ele guardava todas as dúvidas, todas as incertezas, todas as dores de sua vida. Um porão de adiamentos. Um porão que ele havia transformado em algo habitável, confortável, limpo, aconchegante até. Como sua vida. Quem o visse, teria dele a melhor imagem: bonito, educado, de boa expressão. Tudo certinho. Aparentemente.
Mostra-lhe a casa, acomoda-a na sala. Mostra fotos e mais fotos. Fotos de amigos. Fotos de família. Fotos de ex-namoradas... “Essa aqui você namorou quando?” “Ah, uns seis meses atrás...” A frase caiu-lhe como um soco. Seis meses antes estavam juntos.
Pedem comida. Pizza. Ele fala com ela como se estivesse recebendo uma visita em sua casa. Sim, o que parecera amor virara gentileza. Simples gentileza.
Fazem amor como duas pessoas que não se pertencem. E ele adormece. Fica a cargo dela desligar a televisão, apagar as luzes, colocar a camisola para alguém que não vai vê-la...
Não dorme como ele. Tem pesadelos. Na verdade, os pesadelos dele... Vê os fantasmas que o assombram: os amorosos, os familiares, os ancestrais... Caminha no meio da noite pelo território dele. Um porão de sentimentos abortados.
Na manhã seguinte, não pede mais que duas xícaras de café bem forte. Ali não haveria mais alimento algum para ela. De espécie alguma.
Caminham sob o sol os últimos passos de sua história. Ao menos ela agora sabia porque era melhor desistir. Um porão trancado no coração daquele homem. Sem chave para abrir.